O engajamento político que floresce nas redes sociais é tão espontâneo quanto parece ou existe uma estrutura profissionalizada operando nos bastidores para fabricar o consenso? Uma investigação jornalística recente sugere que a segunda hipótese merece uma análise aprofundada, revelando que a aparente mobilização orgânica em torno de figuras políticas pode, na verdade, ser o resultado de uma engrenagem de marketing digital meticulosamente orquestrada. A apuração indica que a vasta rede de difusão de conteúdo de um proeminente deputado federal foi coordenada por operadores diretamente ligados à campanha de um conhecido coach e pré-candidato à prefeitura de São Paulo. Essa conexão expõe um modelo de negócio replicável, onde a militância dá lugar a uma operação de performance com metas, hierarquia e uma busca incessante por escala, transformando a disputa por atenção em um campo de batalha profissionalizado.
A Arquitetura da Influência: Mais do que Militância, um Modelo de Negócio?
A estrutura revelada por fontes da imprensa opera com a lógica de uma empresa de marketing de alto desempenho. O recrutamento de centenas de “clipadores” com metas de bilhões de visualizações em poucos dias, a distribuição centralizada de material bruto para edição e a aprovação final por um núcleo de comando demonstram um nível de organização que transcende o ativismo voluntário. Trata-se da aplicação de táticas de escalonamento de conteúdo, comuns no setor privado, para o campo político. Contudo, enquanto no mercado as empresas buscam atender às demandas dos consumidores através de trocas voluntárias, na arena política o objetivo é a conquista do poder coercitivo. Essa transposição de métodos desvirtua a natureza da ação empreendedora. A intervenção planejada na opinião pública não visa criar valor para o indivíduo, mas sim assegurar o controle do aparato estatal, que, em sua essência, opera pela força. Como afirmado, “a intervenção governamental significa sempre ou ação violenta ou a ameaça de tal ação.” [Ludwig von MISES | Ação Humana]. A eficiência da máquina de propaganda, portanto, não mede a satisfação do público, mas sim a sua capacidade de legitimar o poder político.
Quando a Regulação Estatal Tenta Controlar a Narrativa
Diante dessas estratégias agressivas de comunicação, a reação do aparato estatal é inevitável e reveladora. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por exemplo, já impôs sanções severas, como a inelegibilidade, a um dos políticos mencionados por práticas análogas, que envolviam o pagamento por viralização de conteúdo, classificando a ação como abuso de poder econômico. A própria presidência do tribunal sinalizou que a “manipulação de algoritmos” será tratada como crime eleitoral, evidenciando uma tentativa de regular o fluxo de informações. Essa postura exemplifica o juspositivismo em ação: o “crime” não é definido por uma violação a direitos naturais de propriedade ou vida, mas por um decreto do poder vigente que estabelece as regras de sua própria perpetuação. A questão fundamental não é se a ação de criar e divulgar vídeos agride direitos de terceiros — o que, em si, não ocorre — mas se ela desequilibra o jogo eleitoral conforme as normas positivadas pelo próprio Estado.
O Paradoxo da Liberdade de Expressão Vigiada
Nesse cenário, emerge um paradoxo. O mesmo Estado que se diz guardião da liberdade de expressão torna-se o árbitro do que constitui “abuso” e “uso indevido” das ferramentas de comunicação. A definição de fronteiras tão subjetivas abre um precedente perigoso para o controle da narrativa e a supressão de discursos que o poder considera inconvenientes. A regulação da propaganda política, sob o pretexto de garantir a lisura do processo, reforça a ideia de que a esfera política é um campo apartado, regido por leis especiais que não se submetem aos princípios universais do direito natural. A premissa de que o direito é meramente “um comando, uma ordem do soberano; não tem nenhuma conexão necessária com a moralidade ou a justiça” [Murray N. ROTHBARD | A Ética da Liberdade] se materializa quando órgãos estatais decidem o que pode ou não ser dito na disputa pelo controle desse mesmo soberano.
O Custo da Propaganda e o Verdadeiro Debate Ausente
Em última análise, a sofisticação das máquinas de propaganda, seja de um lado ou de outro do espectro ideológico, serve como uma cortina de fumaça que desvia a atenção do debate fundamental. A chamada “guerra cultural”, potencializada por essas operações de marketing, canaliza as energias da população para uma disputa entre personalidades políticas, enquanto as questões sobre os limites do poder estatal, a liberdade individual e a propriedade privada são relegadas a segundo plano. O foco se torna escolher qual administrador terá o monopólio da força, e não questionar a existência desse monopólio. A profissionalização da propaganda política não apenas molda eleições; ela molda a própria percepção da realidade, fazendo com que o cidadão se sinta parte de um time, quando na verdade é apenas um espectador de um jogo cujo resultado sempre implica em submissão. Afinal, a ação governamental, financiada por fundos extraídos compulsoriamente, é empregada “para fins para os quais os cidadãos não os teriam empregado por si mesmos.” [Ludwig von MISES | Ação Humana]. A verdadeira discussão, sobre a própria natureza e legitimidade do poder, permanece silenciada pelo barulho ensurdecedor da viralização.
Fontes:
- Revista Fórum | EXCLUSIVO: Exército de clipadores de Nikolas Ferreira é comandado por generais da campanha de Pablo Marçal
- G1 | TSE torna Pablo Marçal inelegível por propaganda irregular na campanha de 2022
- Poder360 | Manipular algoritmo será crime eleitoral, diz Cármen Lúcia
- Folha de S.Paulo | Nikolas Ferreira é deputado mais influente nas redes, aponta levantamento
- UOL | Exército de ‘clipadores’ e prêmios em dinheiro: a máquina de Marçal na web



